“Longe, e nunca estiveste tão perto, apesar de tudo. Lembro-me de ti ao virar da esquina,numa avenida desconhecida, num hotel de charme, num sonho molhado que teima em acabar…
Lembro-me de ti quando o sol brilha, quando a chuva cai, quando o frio invade
o meu corpo, como um dia invadiste a minha vida. Longe, e nunca estiveste tão perto,
apesar de tudo. Lembras-me a luz do Verão, o cheiro de um livro usado, uma fotografia
rasgada, uma escultura apreciada, um quadro admirado, um cinema apagado.
Lembras-me a andorinha da Primavera, um calipo numa esplanada, uma tarde bem
passada, um cipreste regado, um animal consolado. Longe, e nunca estiveste tão perto,
apesar de tudo. Lembras-me uma folha vermelha e amarela e castanha e verde do Outono, um politico acabado em Soares, um refrão pimba que me borbulha na língua e que me ajuda a ultrapassar os dias que faltam para te ver. Lembras-me a lareira do Inverno, as mãos ansiosas por percorrer a rosa num quarto escuro, a visita de um desconhecido, o pôr-do-sol terminado e o nascer anunciado. Longe, e nunca, apesar de tudo, estiveste tão perto.”